Um apólogo
Machado de Assis
Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:
- Por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma cousa neste mundo?
- Deixe-me, senhora.
-
Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que está com um ar
insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.
-
Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem
cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu.
Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.
- Mas você é orgulhosa.
- Decerto que sou.
- Mas por quê?
- É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, que é que os cose, senão eu?
- Você? Esta agora é melhor. Você é que o cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?
- Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...
-
Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por
você, que vem atrás obedecendo ao que eu faço e mando...
- Também os batedores vão adiante do imperador.
- Você é imperador?
-
Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo
adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e
ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto...
Estavam
nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse
que isto se passava na casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé
de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano,
pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a
coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a
melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética. E dizia a agulha:
-
Então, senhora linha, ainda teima no que dizia há pouco? Não repara que
esta distinta costureira só se importa comigo; eu é que vou aqui entre
os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...
A
linha não respondia nada; ia andando. Buraco aberto pela agulha era
logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e
não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe
dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na
saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic
da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o
dia seguinte; continuou ainda nesse e no outro, até que no quarto acabou
a obra, e ficou esperando o baile.
Veio
a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a
vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto
necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava a um
lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando,
acolchetando, a linha, para mofar da agulha, perguntou-lhe:
-
Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa,
fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com
ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da
costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.
Parece
que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não
menor experiência, murmurou à pobre agulha: - Anda, aprende, tola.
Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida,
enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro
caminho para ninguém. Onde me espetam, fico.
Contei
esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a
cabeça: - Também tenho servido de agulha a muita linha ordinária!
Assis, Machado. Contos. Série Bom Livro. 26ª ed. Editora Ática: 2002. p. 89-90.
6º Ano
Atividade de Literatura
Conto: Um apólogo – Machado de Assis
Responda:
1) Que texto recebe a denominação de romance?
2) E de novela?
3) E de contos?
4) O que são crônicas?
5) E fábulas?
6) Parábolas?
7) E os apólogos?
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Conto de escola
Machado de Assis
A
escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de
1840. Naquele dia – uma segunda-feira, do mês de maio – deixei-me estar
alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã.
Hesitava entre o morro de S. Diogo e o campo de Sant’Ana, que não era
então esse parque atual, construção de gentleman,
mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras,
capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente
disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a
razão.
Na
semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o
pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de
marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho
empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim
uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos
mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me
nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a
lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio.
Não era um menino de virtudes.
Subi
a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo;
ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar
manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e
desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se
Policarpo e tinha perto de cinquenta anos ou mais. Uma vez sentado,
extraiu a jaqueta a bolsinha de rapé e o lenço vermelho, pô-los na
gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se
conservavam de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo
estava em ordem; começaram os trabalhos.
- Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.
Chamava-se
Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tardia.
Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas
trinta ou cinquenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer
logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança
fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola
depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do
que conosco.
- O que é que você quer?
- Logo, respondeu ele com voz trêmula.
Começou
a lição escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da
escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um
escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não
tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem morfino: tinha
boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo,
acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes
no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em
todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma cousa; tão depressa acabei,
como entrei e reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe
cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a
admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punham esses nomes,
pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente,
dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio
senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.
Com
franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso,
ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos
outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das
Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de
desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por
cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso
de uma corda imensa, que bojava no ar, uma cousa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos
joelhos.
- Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.
- Não diga isso, murmurou ele.
Olhei
para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria
pedir-me alguma cousa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de
novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma cousa
particular.
- Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.
- Que é?
- Você...
- Você quê?
Ele
deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o
Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa
circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que
começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia
atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas
podia ser também alguma cousa entre eles. Esse Curvelo era um pouco
levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.
Que
me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito,
falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém
cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...
- De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.
- Então agora...
- Papai está olhando.
Na
verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho,
buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas
nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler.
Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia
devagar, mastigando as ideias e paixões. Não esqueçam que estávamos
então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo
tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O
pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava,
pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do
diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do
costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões
políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção.
Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse;
levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas
tornava logo aos jornais, e lia a valer.
No fim de algum tempo – dez ou doze minutos – Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.
- Sabe o que tenho aqui?
- Não.
- Uma pratinha que mamãe me deu.
- Hoje?
- Não, no outro dia, quando fiz ano...
- Pratinha de verdade?
- De verdade.
Tirou-a
vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei,
cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembra; mas era uma
moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo
resolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para
mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.
- Mas então você fica sem ela?
- Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?
Minha
resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a
mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto
amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca
de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição
de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do
pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...
Tive
uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma ideia
antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma
ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A
novidade estava nos termos da proposta, na troca da lição e dinheiro,
compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação.
Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.
Compreende-se
que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo
aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao
castigo do pai. Se me tem pedido a cousa por favor, alcançá-la-ia do
mesmo modo, como de outras vezes; mas parece que a lembrança das outras
vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender
como queria, - e poder ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse
ensinado mal, - parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo
contava com o favor, - mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí
recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou
brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como
uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e
para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma cousa, um
cobre feio, grosso, azinhavrado...
Não
queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que
continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. –
Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre
os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse
nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos
jornais, lendo com fogo, com indignação...
- Tome, tome...
Relanceei
os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo
que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei;
mas daí a pouco, deitei-lhe outra vez o olho, e – tanto se ilude a
vontade! – não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.
- Dê cá...
Raimundo
deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças,
com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à
perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição, e não me demorei em
fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a
explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de
atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior
para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo
iria bem.
De
repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com
um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me
outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo
que entreva a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não
sorriu; ai contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto
ameaçador. O coração bateu-me muito.
- Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.
- Diga-me isto só, murmurou ele.
Fiz
sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso,
lembrava-me o contato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito;
depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais
inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer
que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o
relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola;
este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações,
com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no
céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um
lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com
os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das
calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia
em casa, dizendo à mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não
fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo
pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.
- Oh! seu Pilar! bradou o mestre.
Fui
e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de
olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado;
ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não
tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de
todos.
- Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.
- Eu...
- Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.
Não
obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito.
Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais,
meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele
examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço
e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de cousas duras, que
tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna,
baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui
pegou a palmatória.
- Perdão, seu mestre... solucei eu.
- Não há perdão! Dê cá a mão! dê cá! vamos! sem-vergonha! dê cá a mão!
- Mas, seu mestre...
- Olha que é pior!
Estendi-lhe
a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima
dos outros, até contemplar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e
inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma cousa; não lhe poupou
nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão.
Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o
negócio, apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o
sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!
Eu por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me
ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala
arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual
negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo
para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que
saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.
Daí
a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a
cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta;
estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando
os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter
denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe
tirávamos alguma coisa?
“Tu me pagas! tão duro como osso!” dizia eu comigo.
Veio
a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria
brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na rua
larga de S. Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi;
provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa
botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas,
ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.
Em
casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas,
menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa
noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da
moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia
seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...
De
manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir
depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar
brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que
eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse
trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse
antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que
amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos
encontros, ao lixo da rua...
Na
rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente,
rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé
rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por
mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir
atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor...
Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar
também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma cousa: Rato na casaca...
Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, e depois enfiei pela Saúde,
e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças
enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo
a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o
primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do
tambor...
Assis, Machado. Contos. Série Bom Livro. 26ª ed. Editora Ática: 2002. p. 31-37.
8º Ano
Atividade de Literatura
Conto: Conto de escola – Machado de Assis
Responda:
1) Qual era a dúvida do narrador naquela segunda-feira?
2) Como era o pai de Pilar?
3) Por que o pai queria que ele fosse caixeiro?
4) Descreva física e psicologicamente:
a) o mestre:
b) Raimundo:
c) Pilar:
d) Curvelo:
5) Em que época política estava o Brasil?
6) Como era a aula?
7) O que a classe fazia quando o professor entrava na sala?
8) O que é rapé?
9) Como eram os castigos físicos e verbais na escola e na família?
10) Na
situação de Raimundo, que estava com dificuldades de fazer lição e
tinha medo do pai, que era seu professor, como você agiria?
11) O que você achou da atitude do Raimundo?
12) E se você fosse Pilar, aceitaria receber a moedinha, em troca de um favor?
13) Se você fosse Curvelo, como agiria se tivesse presenciado a mesma cena que ele presenciou?
14) De acordo com o conto lido, nos tempos atuais se constataria ocorrência de bullying? Dê sua opinião.
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Uns braços
Machado de Assis
Inácio
estremeceu, ouvindo os gritos do solicitador, recebeu o prato que este
lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma trovoada de nomes,
malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.
-
Onde anda que nunca ouve o que lhe digo? Hei de contar tudo a seu pai,
para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo, ou
um pau; sim, ainda pode apanhar, não pense que não. Estúpido! maluco!
-
Olhe que lá fora é isto mesmo que você vê aqui, continuou, voltando-se
para D. Severina, senhora que vivia com ele maritalmente, há anos.
Confunde-me os papéis todos, erra as casas, vai a um escrivão em vez de
ir a outro, troca os advogados: é o diabo! É o tal sono pesado e
contínuo. De manhã é o que se vê; primeiro que acorde é preciso
quebrar-lhe os ossos... Deixe; amanhã hei de acordá-lo a pau de
vassoura!
D.
Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse. Borges espeitorou
ainda alguns impropérios, e ficou em paz com Deus e os homens.
Não
digo que ficou em paz com os meninos, porque o nosso Inácio não era
propriamente menino. Tinha quinze anos feitos e bem feitos. Cabeça
inculta, mas bela, olhos de rapaz que sonha, que adivinha, que indaga,
que quer saber e não acaba de saber nada. Tudo isso posto sobre um corpo
não destituído de graça, ainda que mal vestido. O pai é barbeiro na
Cidade Nova, e pô-lo de agente, escrevente, ou que quer que era, do
solicitador Borges, com esperança de vê-lo no foro, porque lhe parecia
que os procuradores de causas ganhavam muito. Passava-se isto na Rua da
Lapa, em 1870.
Durante
alguns minutos não se ouviu mais que o tinir dos talheres e o ruído da
mastigação. Borges abarrotava-se de alface e vaca; interrompia-se para
virgular a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.
Inácio
ia comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem
para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o
descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os
olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo.
Também
a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus,
constantemente. Usava mangas curtas em todos os vestidos de casa, meio
palmo abaixo do ombro; dali em diante ficavam-lhe os braços à mostra. Na
verdade, eram belos e cheios, em harmonia com a dona, que era antes
grossa que fina, e não perdiam a cor nem a maciez por viverem ao ar; mas
é justo explicar que ela os não trazia assim por faceira, senão porque
já gastara todos os vestidos de mangas compridas. De pé, era muito
vistosa; andando, tinha meneios engraçados; ele, entretanto, quase que
só a via à mesa, onde, além dos braços, mal poderia mirar-lhe o busto.
Não se pode dizer que era bonita; mas também não era feia. Nenhum
adorno; o próprio penteado consta de mui pouco; alisou os cabelos,
apanhou-os, atou-os e fixou-os no alto da cabeça com o pente de
tartaruga que a mãe lhe deixou. Ao pescoço, um lenço escuro, nas
orelhas, nada. Tudo isso com vinte e sete anos floridos e sólidos.
Acabaram
de jantar. Borges, vindo o café, tirou quatro charutos da algibeira,
comparou-os, apertou-os entre os dedos, escolheu um e guardou os
restantes. Aceso o charuto, fincou os cotovelos na mesa e falou a D.
Severina de trinta mil coisas que não interessavam nada ao nosso Inácio;
mas enquanto falava, não o descompunha e ele podia devanear à larga.
Inácio
demorou o café o mais que pôde. Entre um e outro gole alisava a toalha,
arrancava dos dedos pedacinhos de pele imaginários ou passava os olhos
pelos quadros da sala de jantar, que eram dois, um S. Pedro e um S.
João, registros trazidos de festas encaixilhados em casa. Vá que
disfarçasse com S. João, cuja cabeça moça alegra as imaginações
católicas, mas com o austero S. Pedro era demais. A única defesa do moço
Inácio é que ele não via nem um nem outro; passava os olhos por ali
como por nada. Via só os braços de D. Severina, - ou porque
sorrateiramente olhasse para eles, ou porque andasse com eles impressos
na memória.
- Homem, você não acaba mais? bradou de repente o solicitador.
Não
havia remédio; Inácio bebeu a última gota, já fria, e retirou-se, como
de costume, para o seu quarto, nos fundos da casa. Entrando, fez um
gesto de zanga e desespero e foi depois encostar-se a uma das duas
janelas que davam para o mar. Cinco minutos depois, a vista das águas
próximas e das montanhas ao longe restituía-lhe o sentimento confuso,
vago, inquieto, que lhe doía e fazia bem, alguma coisa que deve sentir a
planta, quando abotoa a primeira flor. Tinha vontade de ir embora e de
ficar. Havia cinco semanas que ali morava, e a vida era sempre a mesma,
sair de manhã com o Borges, andar por audiências e cartórios, correndo,
levando papéis ao selo, ao distribuidor, aos escrivães, aos oficiais de
justiça. Voltava à tarde, jantava e recolhia-se ao quarto, até a hora da
ceia; ceava e ia dormir. Borges não lhe dava intimidade na família, que
se compunha apenas de D. Severina, nem Inácio a via mais de três vezes
por dia, durante as refeições. Cinco semanas de solidão, de trabalho sem
gosto, longe da mãe e das irmãs; cinco semanas de silêncio, porque ele
só falava uma ou outra vez na rua; em casa, nada.
- Deixe estar, - pensou ele um dia - fujo daqui e não volto mais.
Não
foi; sentiu-se agarrado e acorrentado pelos braços de D. Severina.
Nunca vira outros tão bonitos e tão frescos. A educação que tivera não
lhe permitia encará-los logo abertamente, parece até que a princípio
afastava os olhos, vexado. Encarou-os pouco a pouco, ao ver que eles não
tinham outras mangas, e assim os foi descobrindo, mirando e amando. No
fim de três semanas eram eles, moralmente falando, as suas tendas de
repouso. Agüentava toda a trabalheira de fora toda a melancolia da
solidão e do silêncio, toda a grosseria do patrão, pela única paga de
ver, três vezes por dia, o famoso par de braços.
Naquele
dia, enquanto a noite ia caindo e Inácio estirava-se na rede (não tinha
ali outra cama), D. Severina, na sala da frente, recapitulava o
episódio do jantar e, pela primeira vez, desconfiou alguma coisa
Rejeitou a idéia logo, uma criança! Mas há idéias que são da família das
moscas teimosas: por mais que a gente as sacuda, elas tornam e pousam.
Criança? Tinha quinze anos; e ela advertiu que entre o nariz e a boca do
rapaz havia um princípio de rascunho de buço. Que admira que começasse a
amar? E não era ela bonita? Esta outra idéia não foi rejeitada, antes
afagada e beijada. E recordou então os modos dele, os esquecimentos, as
distrações, e mais um incidente, e mais outro, tudo eram sintomas, e
concluiu que sim.
- Que é que você tem? disse-lhe o solicitador, estirado no canapé, ao cabo de alguns minutos de pausa.
- Não tenho nada.
-
Nada? Parece que cá em casa anda tudo dormindo! Deixem estar, que eu
sei de um bom remédio para tirar o sono aos dorminhocos...
E
foi por ali, no mesmo tom zangado, fuzilando ameaças, mas realmente
incapaz de as cumprir, pois era antes grosseiro que mau. D. Severina
interrompia-o que não, que era engano, não estava dormindo, estava
pensando na comadre Fortunata. Não a visitavam desde o Natal; por que
não iriam lá uma daquelas noites? Borges redargüia que andava cansado,
trabalhava como um negro, não estava para visitas de parola, e descompôs
a comadre, descompôs o compadre, descompôs o afilhado, que não ia ao
colégio, com dez anos! Ele, Borges, com dez anos, já sabia ler, escrever
e contar, não muito bem, é certo, mas sabia. Dez anos! Havia de ter um
bonito fim: - vadio, e o côvado e meio nas costas. A tarimba é que viria
ensiná-lo.
D.
Severina apaziguava-o com desculpas, a pobreza da comadre, o caiporismo
do compadre, e fazia-lhe carinhos, a medo, que eles podiam irritá-lo
mais. A noite caíra de todo; ela ouviu o tlic do lampião do gás da rua,
que acabavam de acender, e viu o clarão dele nas janelas da casa
fronteira. Borges, cansado do dia, pois era realmente um trabalhador de
primeira ordem, foi fechando os olhos e pegando no sono, e deixou-a só
na sala, às escuras, consigo e com a descoberta que acaba de fazer.
Tudo
parecia dizer à dama que era verdade; mas essa verdade, desfeita a
impressão do assombro, trouxe-lhe uma complicação moral que ela só
conheceu pelos efeitos, não achando meio de discernir o que era. Não
podia entender-se nem equilibrar-se, chegou a pensar em dizer tudo ao
solicitador, e ele que mandasse embora o fedelho. Mas que era tudo? Aqui
estacou: realmente, não havia mais que suposição, coincidência e
possivelmente ilusão. Não, não, ilusão não era. E logo recolhia os
indícios vagos, as atitudes do mocinho, o acanhamento, as distrações,
para rejeitar a idéia de estar enganada. Daí a pouco, (capciosa
natureza!) refletindo que seria mau acusá-lo sem fundamento, admitiu que
se iludisse, para o único fim de observá-lo melhor e averiguar bem a
realidade das coisas.
Já
nessa noite, D. Severina mirava por baixo dos olhos os gestos de
Inácio; não chegou a achar nada, porque o tempo do chá era curto e o
rapazinho não tirou os olhos da xícara. No dia seguinte pôde observar
melhor, e nos outros otimamente. Percebeu que sim, que era amada e
temida, amor adolescente e virgem, retido pelos liames sociais e por um
sentimento de inferioridade que o impedia de reconhecer-se a si mesmo.
D. Severina compreendeu que não havia recear nenhum desacato, e concluiu
que o melhor era não dizer nada ao solicitador; poupava-lhe um
desgosto, e outro à pobre criança. Já se persuadia bem que ele era
criança, e assentou de o tratar tão secamente como até ali, ou ainda
mais. E assim fez; Inácio começou a sentir que ela fugia com os olhos,
ou falava áspero, quase tanto como o próprio Borges. De outras vezes, é
verdade que o tom da voz saía brando e até meigo, muito meigo; assim
como o olhar geralmente esquivo, tanto errava por outras partes, que,
para descansar, vinha pousar na cabeça dele; mas tudo isso era curto.
- Vou-me embora, repetia ele na rua como nos primeiros dias.
Chegava
a casa e não se ia embora. Os braços de D. Severina fechavam-lhe um
parêntesis no meio do longo e fastidioso período da vida que levava, e
essa oração intercalada trazia uma ideia original e profunda, inventada
pelo céu unicamente para ele. Deixava-se estar e ia andando. Afinal,
porém, teve de sair, e para nunca mais; eis aqui como e porquê.
D.
Severina tratava-o desde alguns dias com benignidade. A rudeza da voz
parecia acabada, e havia mais do que brandura, havia desvelo e carinho.
Um dia recomendava-lhe que não apanhasse ar, outro que não bebesse água
fria depois do café quente, conselhos, lembranças, cuidados de amiga e
mãe, que lhe lançaram na alma ainda maior inquietação e confusão. Inácio
chegou ao extremo de confiança de rir um dia à mesa, coisa que jamais
fizera; e o solicitador não o tratou mal dessa vez, porque era ele que
contava um caso engraçado, e ninguém pune a outro pelo aplauso que
recebe. Foi então que D. Severina viu que a boca do mocinho, graciosa
estando calada, não o era menos quando ria.
A
agitação de Inácio ia crescendo, sem que ele pudesse acalmar-se nem
entender-se. Não estava bem em parte nenhuma. Acordava de noite,
pensando em D. Severina. Na rua, trocava de esquinas, errava as portas,
muito mais que dantes, e não via mulher, ao longe ou ao perto, que lha
não trouxesse à memória. Ao entrar no corredor da casa, voltando do
trabalho, sentia sempre algum alvoroço, às vezes grande, quando dava com
ela no topo da escada, olhando através das grades de pau da cancela,
como tendo acudido a ver quem era.
Um
domingo, - nunca ele esqueceu esse domingo, - estava só no quarto, à
janela, virado para o mar, que lhe falava a mesma linguagem obscura e
nova de D. Severina. Divertia-se em olhar para as gaivotas, que faziam
grandes giros no ar, ou pairavam em cima d'água, ou avoaçavam somente. O
dia estava lindíssimo. Não era só um domingo cristão; era um imenso
domingo universal.
Inácio
passava-os todos ali no quarto ou à janela, ou relendo um dos três
folhetos que trouxera consigo, contos de outros tempos, comprados a
tostão, debaixo do passadiço do Largo do Paço. Eram duas horas da tarde.
Estava cansado, dormira mal a noite, depois de haver andado muito na
véspera; estirou-se na rede, pegou em um dos folhetos, a Princesa
Magalona, e começou a ler. Nunca pôde entender por que é que todas as
heroínas dessas velhas histórias tinham a mesma cara e talhe de D.
Severina, mas a verdade é que os tinham. Ao cabo de meia hora, deixou
cair o folheto e pôs os olhos na parede, donde, cinco minutos depois,
viu sair a dama dos seus cuidados. O natural era que se espantasse; mas
não se espantou. Embora com as pálpebras cerradas viu-a desprender-se de
todo, parar, sorrir e andar para a rede. Era ela mesma, eram os seus
mesmos braços.
É
certo, porém, que D. Severina, tanto não podia sair da parede, dado que
houvesse ali porta ou rasgão, que estava justamente na sala da frente
ouvindo os passos do solicitador que descia as escadas. Ouviu-o descer;
foi à janela vê-lo sair e só se recolheu quando ele se perdeu ao longe,
no caminho da Rua das Mangueiras. Então entrou e foi sentar-se no
canapé. Parecia fora do natural, inquieta, quase maluca; levantando-se,
foi pegar na jarra que estava em cima do aparador e deixou-a no mesmo
lugar; depois caminhou até à porta, deteve-se e voltou, ao que parece,
sem plano. Sentou-se outra vez cinco ou dez minutos. De repente,
lembrou-se que Inácio comera pouco ao almoço e tinha o ar abatido, e
advertiu que podia estar doente; podia ser até que estivesse muito mal.
Saiu
da sala, atravessou rasgadamente o corredor e foi até o quarto do
mocinho, cuja porta achou escancarada. D. Severina parou, espiou, deu
com ele na rede, dormindo, com o braço para fora e o folheto caído no
chão. A cabeça inclinava-se um pouco do lado da porta, deixando ver os
olhos fechados, os cabelos revoltos e um grande ar de riso e de
beatitude.
D.
Severina sentiu bater-lhe o coração com veemência e recuou. Sonhara de
noite com ele; pode ser que ele estivesse sonhando com ela. Desde
madrugada que a figura do mocinho andava-lhe diante dos olhos como uma
tentação diabólica. Recuou ainda, depois voltou, olhou dois, três, cinco
minutos, ou mais. Parece que o sono dava à adolescência de Inácio uma
expressão mais acentuada, quase feminina, quase pueril. Uma criança!
disse ela a si mesma, naquela língua sem palavras que todos trazemos
conosco. E esta ideia abateu-lhe o alvoroço do sangue e dissipou-lhe em
parte a turvação dos sentidos.
- Uma criança!
E
mirou-o lentamente, fartou-se de vê-lo, com a cabeça inclinada, o braço
caído; mas, ao mesmo tempo que o achava criança, achava-o bonito, muito
mais bonito que acordado, e uma dessas ideias corrigia ou corrompia a
outra. De repente estremeceu e recuou assustada: ouvira um ruído ao pé,
na saleta do engomado; foi ver, era um gato que deitara uma tigela ao
chão. Voltando devagarinho a espiá-lo, viu que dormia profundamente.
Tinha o sono duro a criança! O rumor que a abalara tanto, não o fez
sequer mudar de posição. E ela continuou a vê-lo dormir, - dormir e
talvez sonhar.
Que
não possamos ver os sonhos uns dos outros! D. Severina ter-se-ia visto a
si mesma na imaginação do rapaz; ter-se-ia visto diante da rede,
risonha e parada; depois inclinar-se, pegar-lhe nas mãos, levá-las ao
peito, cruzando ali os braços, os famosos braços. Inácio, namorado
deles, ainda assim ouvia as palavras dela, que eram lindas cálidas,
principalmente novas, - ou, pelo menos, pertenciam a algum idioma que
ele não conhecia, posto que o entendesse. Duas três e quatro vezes a
figura esvaía-se, para tornar logo, vindo do mar ou de outra parte,
entre gaivotas, ou atravessando o corredor com toda a graça robusta de
que era capaz. E tornando, inclinava-se, pegava-lhe outra vez das mãos e
cruzava ao peito os braços, até que inclinando-se, ainda mais, muito
mais, abrochou os lábios e deixou-lhe um beijo na boca.
Aqui
o sonho coincidiu com a realidade, e as mesmas bocas uniram-se na
imaginação e fora dela. A diferença é que a visão não recuou, e a pessoa
real tão depressa cumprira o gesto, como fugiu até à porta, vexada e
medrosa. Dali passou à sala da frente, aturdida do que fizera, sem olhar
fixamente para nada. Afiava o ouvido, ia até o fim do corredor, a ver
se escutava algum rumor que lhe dissesse que ele acordara, e só depois
de muito tempo é que o medo foi passando. Na verdade, a criança tinha o
sono duro; nada lhe abria os olhos, nem os fracassos contíguos, nem os
beijos de verdade. Mas, se o medo foi passando, o vexame ficou e
cresceu. D. Severina não acabava de crer que fizesse aquilo; parece que
embrulhara os seus desejos na idéia de que era uma criança namorada que
ali estava sem consciência nem imputação; e, meia mãe, meia amiga,
inclinara-se e beijara-o. Fosse como fosse, estava confusa, irritada,
aborrecida mal consigo e mal com ele. O medo de que ele podia estar
fingindo que dormia apontou-lhe na alma e deu-lhe um calafrio.
Mas
a verdade é que dormiu ainda muito, e só acordou para jantar. Sentou-se
à mesa lépido. Conquanto achasse D. Severina calada e severa e o
solicitador tão ríspido como nos outros dias, nem a rispidez de um, nem a
severidade da outra podiam dissipar-lhe a visão graciosa que ainda
trazia consigo, ou amortecer-lhe a sensação do beijo. Não reparou que D.
Severina tinha um xale que lhe cobria os braços; reparou depois, na
segunda-feira, e na terça-feira, também, e até sábado, que foi o dia em
que Borges mandou dizer ao pai que não podia ficar com ele; e não o fez
zangado, porque o tratou relativamente bem e ainda lhe disse à saída:
- Quando precisar de mim para alguma coisa, procure-me.
- Sim, senhor. A Sra. D. Severina...
- Está lá para o quarto, com muita dor de cabeça. Venha amanhã ou depois despedir-se dela.
Inácio
saiu sem entender nada. Não entendia a despedida, nem a completa
mudança de D. Severina, em relação a ele, nem o xale, nem nada. Estava
tão bem! falava-lhe com tanta amizade! Como é que, de repente... Tanto
pensou que acabou supondo de sua parte algum olhar indiscreto, alguma
distração que a ofendera, não era outra coisa; e daqui a cara fechada e o
xale que cobria os braços tão bonitos... Não importa; levava consigo o
sabor do sonho. E através dos anos, por meio de outros amores, mais
efetivos e longos, nenhuma sensação achou nunca igual à daquele domingo,
na Rua da Lapa, quando ele tinha quinze anos. Ele mesmo exclama às
vezes, sem saber que se engana:
- E foi um sonho! um simples sonho!
Disponível em: http://www2.uol.com.br/machadodeassis
8º Ano Branco
Atividade de Literatura
Conto: Uns braços – Machado de Assis
Responda:
1) Qual o foco narrativo do conto? Narrador observador (não participa) ou narrador personagem (participa)?
2) Qual é o assunto do conto?
3) Apresente os personagens contidos nessa narrativa e suas características físicas e psicológicas.
4) Onde e quando se passa a história narrada?
5) O
trecho “Inácio estremeceu, ouvindo gritos do solicitador, recebeu o
prato que este lhe apresentava e tratou de comer, debaixo de uma
trovoada de nomes, malandro, cabeça de vento, estúpido, maluco.” que
inicia o conto, não nos aponta o motivo pelo qual o solicitador
encontra-se tão nervoso com o personagem Inácio. No entanto, podemos
verificar o porquê das “trovoadas de nomes” um pouco mais adiante no
texto. Sendo assim, por que o solicitador estava tão bravo com Inácio?
6) Em que parte do texto, verificamos uma justificativa para o título dado ao conto?
7) De acordo com o texto, como pode ser caracterizada a relação do solicitador Borges com a esposa?
8) Retire do texto um trecho que retrata a rotina de Inácio.
9) Apesar
de desejar e pensar várias vezes na ideia de deixar a casa do
solicitador, Inácio não tem coragem e permanece ali. Por quê?
10) Qual é o momento de maior tensão na narrativa? Transcreva o trecho.
11) Em relação ao beijo presente na história:
a) Para qual dos personagens, ele aconteceu apenas no sonho?
b) Para qual, ele aconteceu na realidade?
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A cartomante
Machado de Assis
Hamlet observa a Horácio
que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia.
Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa
sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na
véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras
palavras.
- Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois
saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo
que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas,
disse-me: “ A senhora gosta de uma pessoa...” Confessei que sim, e então
ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que
eu tinha medo de que você esquecesse, mas que não era verdade...
- Errou! interrompeu Camilo, rindo.
-
Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua
causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo
pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria
muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo caso, quando
tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois,
repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela
podia sabê-lo, e depois...
- Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
- Onde é a casa?
- Aqui perto, na Rua da Guarda Velha, não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez.
- Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi
então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que
havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo.
Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido
que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as ilusões.
Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um
arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos
desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e
ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos
os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação
total. Camilo não acreditava em nada. Por
quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a
negar tudo. E digo mal, porque negar é afirmar, e ele não formulava a
incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e
foi andando.
Separaram-se
contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada;
Camilo, não só estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele,
correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar
de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos
Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua
das Mangueiras na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela
da Guarda Velha, olhando de passagem para a casa da cartomante.
Vilela,
Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das
origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela
seguiu a carreira de magistrado. Camilo preferiu não ser nada, até que a
mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou
Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou
a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa
para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
- É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do senhor.
Camilo
e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo
confessou de si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas
do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos,
boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava
trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o
porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto
Camilo era ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do
tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns
para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se
os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de
Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos
dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita
tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como
daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de
passar as horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma
irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina:
eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si
próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo
ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; - ela mal, - ele,
para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação
da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele,
que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as
atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica
bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com vulgar cumprimento a
lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia
arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades
sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que
pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o
carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as coisas que o cercam.
Camilo
quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente,
foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num
espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado.
Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a
batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou
que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços
dados, pisando folgadamente por cima das ervas e pedregulhos, sem
padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do
outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um
dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava de imoral
e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve
medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa
de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo
era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências
prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que
entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir
os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi
por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante
para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe confiança, e que o rapaz
repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas.
Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que
não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum
pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal
compostas, formulou este pensamento: - a virtude é preguiçosa e avara,
não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem
por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com
Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era
possível.
-
Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das
cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma
apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio,
falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro,
e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camila devia tornar à
casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a
confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer
depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia
acautelaram-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios
de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com
lágrimas.
No
dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: “Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora”. Era
mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais
natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria
especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão afigurou-se trêmula. Ele
combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
- Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, - repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente,
viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela
indignado, pegando da pena e escrevendo-lhe o bilhete, certo de que ele
acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo:
depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e
foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar algum
recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém.
Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais
verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que
o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma
suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto
fútil, viria confirmar o resto.
Camilo
ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras
estavam decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, - o que era ainda
pior, - eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. “Vem
já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora.” Ditas assim, pela
voz do outro, tinha um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéias, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na
direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e
mandou seguir a trote largo.
“Quanto antes melhor”, pensou; “não posso estar assim...”
Mas
o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e
ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda
Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma
carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou.
No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do
tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e
nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas
fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos
do incidente na rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo
reclinou-se no tílburi, para anão ver nada. A agitação dele era grande,
extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas
de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro
propôs-lhe voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele
respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa...
Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que
lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas;
desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a
pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros
concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
- Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí
a pouco estaria removendo o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava
em outras cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as
palavras da carta: “Vem, já, já...” E ele via as contorções do drama e
tremia. A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar...
Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no
inexplicável de tantas cousas, a voz da mãe repetia-lhe uma porção de
casos extraordinários, e a mesma frase do príncipe da Dinamarca
reboava-lhe dentro: “Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a
filosofia...” Que perdia ele, se...?
Deu
por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os
degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu
nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve a idéia de descer;
mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes
latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma
mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo
entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e
mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela,
que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um
ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A
cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com
as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em
cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas
compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava
para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de
quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e
agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
- Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
- E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
- A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A
cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e
ansioso.
- As cartas dizem-me...
Camilo
inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe
que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro;
ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita
cautela; ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que o ligava, da
beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou,
recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
- A senhora restituiu-me a paz de espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
- Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E
de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe a testa. Camilo estremeceu, como
se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante
foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho
destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha
um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse;
ignorava o preço.
- Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
- Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, deu-lhe uma. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
-
Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do
senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A
cartomante já tinha guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a
escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga,
tornava acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo
lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu
estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que
chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que
eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça?
Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto;
podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
- Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E
consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à
antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as
palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta,
o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o
resto? O presente que se ignorava vale o futuro. Era assim, lentas e
contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o
mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria
de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e
afirmativas, a exortação: - Vá, vá, ragazzo innamorato;
e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais
eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e
vivaz.
A
verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória,
Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o
céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo,
longo, interminável.
Daí
a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do
jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de
pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe
Vilela.
- Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela
não lhe respondeu: tinhas as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um
grito de terror: - ao fundo, sobre o canapé, estava Rita morta e
ensangüentada. Vilela pegou-a pela gola, e, com dois tiros de revólver,
estirou-o morto no chão.
Assis, Machado. Contos. Série Bom Livro. 26ª ed. Editora Ática: 2002. p. 91-98.
9º Ano
Atividade de Literatura
Conto: A cartomante – Machado de Assis
Depois de ler o conto, complete os elementos da narrativa:
1) Personagens:
2) Tempo:
3) Tipo de narrador:
Em relação ao enredo, descreva:
4) Situação inicial:
5) Conflito:
6) Clímax:
7) Desfecho:
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